Como formar uma cultura do estudo?

Por Kátia Zanvettor *
do Portal Imprensa
Katia Zanvettor: "A cultura do estudo é uma proposta de vida"

Katia Zanvettor: “A cultura do estudo é uma proposta de vida”

O texto desta semana é propositalmente pensado para fazer um contraponto com o que escrevi no último artigo “O que as escadas ensinam…”, não porque eu discorde do que foi dito ali ou porque eu ache que ele pode ter criado algum tipo de confusão, mas sim porque eu acredito que o texto criou uma ótima oportunidade para refletirmos sobre o perfil do estudante de jornalismo e sobre como nós professores podemos contribuir para uma formação mais sólida.

Bom, pelo texto passado vocês sabem que acho importante o envolvimento dos alunos em atividades extraclasse, desde a simples conversa entre amigos até a participação em atividades estudantis das mais variadas, o próprio movimento estudantil, a organização de eventos, a freqüência na biblioteca, enfim. Mas tudo isso representa uma parte da formação e não podemos deixar de fora outros elementos, entre eles, o que considero o mais fundamental é o hábito do estudo. E quando falo em estudar não estou pensando naquela ação mecânica, geralmente voltada para passar na prova ou organizar um bom trabalho, estou pensando além disso, estou pensando em uma cultura do estudo.

A cultura do estudo envolve dimensões mais amplas que simplesmente estudar para a prova, ela começa com a valorização do estudo como algo positivo para as nossas vidas, como algo transformador, assim, o aluno que tem uma cultura do estudo se interessa pelas aulas porque compreende que ali não estão as respostas para tudo, mas as chaves que abrem as portas para um saber mais amplo. Este mesmo aluno busca criar uma rotina de estudo porque sabe que o tempo do semestre é muito curto para compreender todas as entrelinhas que envolvem àquela matéria. A cultura do estudo passa pela constatação que apenas a construção do conhecimento – e não uma ação mecanizada – pode proporcionar a autonomia do pensamento humano.

O aluno que tem essa cultura sabe que o professor é muito mais um companheiro de jornada do que um salvador da pátria com todas as respostas. O professor orienta, indica, propõe, questiona, mas dificilmente terá respostas definitivas para os questionamentos do aluno. A cultura do estudo parece, inicialmente, ser o caminho mais difícil tanto para aluno como para professor, mas não é bem assim.

É verdade que nesta nova forma de compreender o estudo o aluno não tem mais o lugar confortável de “receber o conteúdo” do professor, pronto e acabado, dividido em pequenas parcelas que poderá ser consultado e verificado no fim de cada semestre. Ele precisa se esforçar para ir além, compreender, entender a matéria. Ao passar por este estágio inicial, que geralmente é acompanhado de bastante angústia, o estudante pode descobrir uma nova e mais saudável relação com o conhecimento, muito mais produtiva e gratificante.

Por outro lado, para o professor também pode parecer que ao abrir mão da exclusividade do conhecimento ele estará perdendo um lugar de poder e controle seguro, mas que na verdade é superficial e falho. Ao se abrir para o questionamento o professor mostra para os alunos que a construção do conhecimento é uma constante, que nunca cessa e que ele próprio está inserido neste processo.

A cultura do estudo, contudo, é uma proposta de vida. Em que o estudo faz sentido porque cria seres humanos melhores, porque é tão valorizado ou mais que o trabalho profissional, porque proporciona o prazer do conhecimento, porque faz a diferença na formação de cada aluno e contribui para a transformação social. Na cultura do estudo, os jovens estudantes de jornalismo sabem que o conhecimento construído é muito difícil de ser abalado, logo, forma profissionais mais seguros e menos suscetíveis às pressões do mercado. Criar esta cultura é tarefa árdua, os professores comprometidos não podem descansar nenhum dia de levantar essa bandeira, combatendo todo o tipo de simplificação do ato de estudar, valorizando a reflexão verdadeira e combatendo as fórmulas prontas. Mas essa mudança cultural envolve também toda a sociedade que precisa criar oportunidades concretas para o jovem estudar, valorizando as conquistas como fruto do trabalho árduo e não como resultado fácil de uma mente predestinada. È preciso acabar de uma vez por todas com a idéia dos gênios, os verdadeiros gênios, estudam e muito! Enfim, e principalmente, a sociedade precisa valorizar o ser em detrimento do ter.

* Kátia Zanvettor é jornalista e doutoranda pelo programa de Pós-Graduação em Educação da USP. É também professora do curso de Pós-graduação em Comunicação do UniFOA.

katia.zanvettor@gmail.com
 
 
 
 

 

 

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