Vale-[isso]tudo?

Igreja Renascer monta ringue de vale-tudo dentro do templo para atrair jovens

Por Eliciano R.S.

Certamente você já ouviu ou leu analogias na Bíblia entre o esporte e a vida espiritual. Só para lembrar: “Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só é que recebe o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. E todo aquele que luta, exerce domínio próprio em todas as coisas; ora, eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível, nós, porém, uma incorruptível. Pois eu assim corro, não como indeciso; assim combato, não como batendo no ar. Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à submissão, para que, depois de pregar a outros, eu mesmo não venha a ficar reprovado” (I Coríntios 9. 24-27).

Paulo usou como exemplo atividades físicas para explicar realidades importantes para todos nós. Mas será que o pessoal da igreja Renanscer em Cristo – a mesma cujo teto de um templo veio abaixo recentemente – se empolgou demais sobre isso?

É o que parece ter acontecido. A Folha de S.Paulo, faz alguns dias, publicou uma matéria cujo título transcrevo na íntegra: “Igreja Renascer monta ringue de vale-tudo em templo para atrair mais jovens a culto em SP”. Se alguém quer chamar o vale-tudo de esporte fique à vontade, mas nas guerras da antiguidade também se praticava bastante esse tipo de atividade. Valia tudo para derrotar o inimigo: socos, ponta-pés, facões, espadas, arcos, pedras etc. Sei não, mas o vale- tudo está mais para um atalho para quem quer ser arrebentado. Os praticantes podiam se jogar na frente de uma moto ou bicicleta, pular do segundo andar de um prédio, assim teriam resultados parecidos.

Segundo a matéria da Folha, depois de alguns rounds e com o perdedor estirado na lona, o pastor [Mazola] encerra a primeira série de lutas e anuncia o início do culto.

Olha só. O cara todo quebrado depois da luta vai orar, cantar… é complicado entender esse mecanismo. A idéia em si é boa: atrair jovens para Cristo, mas a esse custo, dessa forma ridiculamente montada? É demais.

O ringue é erguido colado ao altar e o locutor fica narrando o combate lá de cima mesmo.

O marketing em si não é bom nem mau. É seu uso quem vai definir isso, assim como a internet. Quando um pastor anuncia que no próximo sábado haverá culto para jovens, ele está fazendo marketing. Quando um professor de escola bíblica dominical está ensinado seus alunos, ele está fazendo marketing. Quando o grupo de teatro da igreja monta e apresenta uma peça, também está fazendo marketing. É como um grande estudioso da área já disse: “Marketing é tudo e ao mesmo tempo nada”.

Sem me alongar na definição do que é o Marketing, a estratégia de montar um ringue de vale-tudo do lado do altar para atrair mais jovens, sem dúvida é marketing. Mas até quanto isso é saudável para a igreja do ponto de vista bíblico, ético e moral? 

E para contribuir para piorar a imagem do que é ser evangélico, a Folha consultou uma antropóloga para falar sobre o assunto. Segundo Clara Mafra, pesquisadora da religião, isso é “inusitado, mas não extraordinário entre evangélicos”, e lembra que nos anos 1940 foram introduzidas guitarras nos cultos aqui no Brasil. Com todo respeito, dona Clara Mafra, mas que diferença, não? Acho que a senhora em questão não tinha muitos argumentos para explicar esta singularidade da igreja Renascer e emendou essa piada. Porém, numa coisa eu quase concordei com ela, quando disse que “a junção de sagrado e mundano causa estranheza, que pode ser ruim ou ter apelo como bom marketing religioso”. É certo que causa estranheza, e também é certo que tem apelo como marketing, mas não um bom marketing. 

Enfim, nada mais a dizer, apenas que a aludida igreja fica em Alphaville, na Grande São Paulo sob responsabilidade do bispo Leandro Miglioli de 33 anos.

(Com informações da Folha de S.Paulo)

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About Francisco Eliciano

Francisco Eliciano é graduado em Administração de Empresas. É membro de Igreja Batista em Teresina-PI. Dá muito valor ao estudo bíblico. Sobretudo, ele é servo de Jesus Cristo. Escreve no Infosol desde 2008 juntamente com uma galera fantástica. Também colabora com o 'Ideias que Conecatm' uma página no facebook (facebook.com/iqconectam).

There are 4 comments

  1. Osvaldo Filho

    Nos dias de hoje, o foco da vida cristã vem se desviado bastante. Incentivar um esporte tão violento, onde muitas vezes, vidas são colocadas em risco, e o amor pode dar lugar ao ódio no coração dos “lutadores”, nem de longe parece ser algo que Jesus faria. Assim, deveria nem ao menos ser cogitada uma estratégia de “marketing” como essa para falar do amor de Jesus.
    O problema maior das “igrejas” modernas, não muito diferentes da antigas, é que o principal objetivo dessas não é viver uma vida de amor, mas sim, encher os templos e falar de dízimos e ofertas, alimentando a ganância e o pecado de quem deveria morrer para si mesmo e viver para Cristo. Não que seja errado dizimar e ofertar, mas que as pregações não sejam tão direcionadas ao dinheiro, mas sim, no amor e no perdão.

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  2. Carla Soares

    Exatamente o contrário: quero dizer que todos esses artifícios consistem numa forma de atrair multidões, de agradar o ego das pessoas, ao invés de ensinar a Palavra de Deus, e ensinar a viver a autêntica (e sofrida) VIDA CRISTÃ. Não é só discordar de apelos tão baixos: é ver que ainda há quem acredite que encher igreja é o mesmo que levar almas pra Jesus…

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  3. Carla Soares

    O grande problema está em atrair as pessoas para o local, para as atividades, para as “promessas”, e não para o Cristo ressurreto, que exige rendição à Sua vontade e ao Seu plano. Há que se ver se o objetivo é atrair pessoas ou levá-las a Cristo e ensiná-las a viver a vida cristã. Isto requer princípios e valores. Certamente, bem diferentes do que o mundo tem a oferecer.

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