Fígado, rins, pênis, coração e mais alguns: uma reunião inusitada!

Homem Vitruviano, desenho de Leonardo da Vinci.

Que dia aquele! Lá estavam todos os órgãos do seu Assis reunidos. Hã?! Os órgãos de alguém reunidos? Como assim? Bem, é de fato inusitada uma coisa dessas, mas aconteceu assim:

O majestoso Cérebro mandou circular por todo o corpo do seu Assis um aviso importantíssimo:

“Avisamos a V.Exª que, no segundo sábado do mês seguinte realizaremos uma Conferência Interorgânica especial de pauta única, com o intuito de acabar com certas desavenças entre egos inflados de alguns colegas órgãos de vários setores de nosso hospedeiro.

O objetivo da conferência é responder a uma única e simples questão: Quem é o órgão mais importante.

Saudações de Sua Majestade, o poderoso, CÉREBRO.”

Só pelo aviso já dá para perceber que o “poderoso” Cérebro tem uma opinião formada à respeito de quem é o “órgão mais importante”.

Enfim, agora era só aguardar a grande Conferência.

No dia marcado, lá estavam, em peso, todos os órgãos para debaterem e encerrarem de uma vez por todas essa questão que perturbava alguns.

O sr. Cérebro deu início à Conferência com um breve relato da razão daquela grande concentração. Pediu, ainda, que todos se portassem de maneira civilizada e evitassem agressões uns aos outros.

Foi lançada, então, a grande pergunta: “Quem de nós é o mais importante?”

Os gêmeos Pulmão de Assis e Pulmão de Assis II não perderam tempo e emendaram: “Na verdade, nós dois, achamos até desnecessária esta conferência, uma vez que se não oferecêssemos oxigênio para todos vocês, ninguém estaria aqui. Aliás, estariam todos mortos! Portanto, já está respondida a questão. Era só pensarem um pouco mais. Nós somos os mais importantes!”

Indignado, o sr. Fígado reagiu: “É bem verdade que precisamos de oxigênio, mas de que adianta miligramas e mais miligramas de oxigênio sem um propósito? Eu metabolizo todos os nutrientes necessários para o corpo todo, assim, nosso hospedeiro, o Assis, pode dispor de energia necessária para suas atividades no dia a dia. E tem mais: ele (Assis) gosta muito de exercícios físicos, principalmente musculação, ele gosta de se sentir forte, músculos bem definidos… e, agora pergunto: quem metaboliza as proteínas necessárias para sua hipertrofia muscular? Está claro senhores, eu sou o órgão mais importante!”

O clima na sala esquentou. O sr. Cérebro, com seu ar de pacificador, tentava acalmar a todos. Até que, de repente, alguém se levantou. Era o Nariz, que segundo ele, estava representando a Associação dos Órgãos dos Sentidos.

“Nós, órgãos da linha de frente, dentre os quais se encontram associados as senhoritas Orelhas, o senhores Olhos, o sr. Pênis, e nossa maior representante, a senhorita Epiderme, poderíamos facilmente e individualmente mostrar o quanto somos os mais importantes. Nossa humildade, entretanto, sugere que façamos isso de forma coletiva, até para agilizar os trabalhos desta conferência. Queremos dizer, portanto, que os senhores não se esqueçam que sem enxergar, o seu Assis passaria poucas e boas e não poderia contemplar as belezas naturais deste mundo. E sem as Orelhas? Como nosso hospedeiro iria escutar suas canções de que tanto gosta? Viveria infeliz, numa vida pouco divertida e pobre em experiências. Eu, que tanto sou vítima de cirurgias plásticas… o que sugere, no mínimo, que sou muito importante nas relações sociais e que o oxigênio, as proteínas e demais nutrientes, são mero coadjuvantes, assim como seus produtores”. Nesse momento, o Nariz foi interrompido bruscamente pelo Fígado; os Pulmões partiram para a agressão física. Ainda bem que foram contidos rapidamente pelos Rins.

O Nariz, então, finalizou: “Eu não queria instigar a violência aqui, me perdoem. Mas tenho de terminar meu discurso. Vou resumi-lo em poucas palavras. Quero apenas que vocês pensem na senhorita Epiderme. É fato que, todos aqui, poderiam falecer rapidamente, infeccionados caso não contassem com a proteção dela. E o sr. Pênis? Como vocês acham que há a reprodução desta nossa espécie? Finalizo com a seguinte conclusão: nós, da Associação dos Órgãos dos Sentidos, por estarmos em evidência e sermos cruciais nas relações sociais de nosso hospedeiro, assim como na sua reprodução, nos consideramos, sem qualquer dúvida, os órgãos mais importantes de todos.”

O clima que antes estava fervoroso, parecia um velório. O discurso do sr. Nariz havia sido muito convincente e, além do mais, ele falava em nome de uma associação. Ainda assim, muitos com ressentimentos, se perguntavam por que o Nariz gosta de se meter onde não é chamado.

Os Pulmões estavam agora de cabeça baixa; os Rins nem ousavam se pronunciar; o Fígado parecia que se dava por vencido; o Intestino e o Estômago estavam quietos na sua. É, parecia que finalmente haviam chegado a uma conclusão. Bem, só parecia, porque o Cérebro ainda iria falar.

“Caros irmãos, vejo que todos aqui parecem ter se colocado em seus devidos lugares. Com exceção, todavia, do Sr. Nariz e companhia. Minha mensagem será curta e objetiva. Sou eu quem passa as informações do mundo exterior para cada um de vocês, e a senhorita Epiderme, tanto quanto os senhores Olhos e Pênis, apenas são os meios que eu uso para isso. Sou eu quem digo o que o Assis viu através dos Olhos, se uma borboleta ou um leão, dando as instruções certas em cada caso. Se for uma borboleta eu digo: que lindo, não é, Assis? Se for um leão, digo: corra, Assis… Portanto, não há o que se discutir aqui. Convoquei esta conferência apenas para deixar bem claro que quem manda aqui sou eu!”

É… a grande Conferência Interorgânica parece ter servido apenas para afirmar o poder do Cérebro.

Chegado, portanto, à conclusão, todos se despediram.

Passado alguns dias, um novo comunicado do Cérebro circulou por todo o corpo do seu Assis. Todos estavam curiosos, mas alguns mais atentos já imaginavam o que se trataria nessa nova conferência. O comunicado era breve e simples:

Convoco todos, sem exceções, a uma nova conferência, por motivos urgentes! Amanhã.”

Hum, parece que a coisa é séria mesmo. A levar pelo comunicado, o assunto, dessa vez, ia muito além de vaidades.

“Senhores, senhoras, obrigado pela presença de todos”. Dava-se início, assim, à nova reunião pelo Sr. Cérebro, que continuou: “Instalou-se em nosso hospedeiro algo anormal. Tenho recebido sérias queixas de vários órgãos. A senhorita Epiderme tem visto seu gigantesco domínio sobre o corpo de seu Assis sendo infestado por acnes, na verdade, aquilo não se pode nem chamar de acne, são vulcões! O sr. Estômago tem sentido sérias dores. Eu, pior ainda, além de fortes dores, tenho sentido grande mal-estar, irritação – outro dia chamei a dona Boca de boca de cova, bafo de onça e outras coisas. Mas, coitada, ela também tem sido vítima desse mal-estar geral. A coisa está séria! Seu Assis vai ser internado amanhã!”

“A coisa tá séria é?” Disseram os Olhos esbugalhados! “Nós estamos aqui, sentido falta de oxigênio; parece que os Pulmões e o Nariz tiraram férias!”

Uma zona se instalou nesse momento! Todos discutiam, todos reclamavam. Os Pulmões disseram não ter condições de distribuir mais oxigênio, pois estavam extremamente debilitados e sufocados.

Com os gritos e barulhos causados pelas discussões não se entendia mais nada! Parecia mesmo o fim da vida do seu Assis! Os órgãos, todos eles, estavam em colapso!

De repente, lá no fundo, bem no fundo mesmo, alguém parecia pedir atenção. Insistentemente, porém com muita paciência e tranquilidade, um órgão levantava para pedir um minuto a fim de se pronunciar.

Horas de confusão se passaram. O Cérebro já não raciocinava nada e os outros órgãos desfalecendo: quase um armagedom.

Após algum tempo, todos já estavam fracos e sem condições de dizer nada. O silêncio começava a dominar o ambiente. Uma aura de morte pairava sobre aquele lugar. Então, o órgão lá do fundo, que há muito tempo pedia atenção viu que aquela era a chance, haja vista todos já estarem sem forças para falar.

O Cérebro, num lapso de consciência, deu a palavra: “Pode falar senhor Ânus”.

“Até que enfim! Agora vão me escutar. Antes de começar quero fazer uma pergunta a vocês: Quem é o órgão mais importante mesmo? Hã? Não escutei! Alguém quer se manifestar?” O silêncio dominava o local. Estavam todos sufocados. “Pois é, há alguns dias, nós estávamos numa reunião para decidir quem era o mais importante”, disse o sr. Ânus, e prosseguiu: “Alguns discursaram bonito, exibiram toda a sua vaidade e se autoproclamavam o ‘mais importante’. E agora? Onde está o superpoder do Grande Cérebro? Onde está a vaidade da Associação dos Órgãos dos Sentidos, aqueles que são os mais vistos? Cadê o oxigênio, heim sr. Pulmão? Como vai a metabolização dos aminoácidos, das proteínas, sr. Fígado? Pois é, fechei com muita força lá embaixo pra nada sair, e olha o que acontece… achei que vocês fossem mais resistentes! Se eu não abrir parece que vai todo mundo morrer”.

O senhor Ânus prosseguia com sua fala, muito elegantemente, sabendo que tinha dado uma boa lição nos seus colegas. Então finalizou: “É o seguinte, vou me abrir agora, deixar passar o que tá atrasado, antes que todo mundo morra. Mas, quero uma nova Conferência para retificar a decisão da reunião passada!”

O Cérebro logo clamou: “Por favor, sr. Ânus, libere logo! Você terá a nova Conferência para retificar a decisão!” Satisfeito com o que ouviu, lá foi o sr. Ânus, apressadamente resolver o problema.

Alguns dias depois, quando todos já estavam recuperados, aconteceu a Conferência. O sr. Cérebro, o único a falar, foi claro e, novamente, bem objetivo:

“Senhores e Senhoras, aprendemos uma grande lição. Entendemos que o objeto da reunião passada, que era decidir quem de nós é o mais importante, se mostrou supérfluo, mesquinho e totalmente desumano. Assim sendo, não obstante já tarde para isso, queremos deixar registrado em nossa ata que não há o mais importante. Somos dependentes uns dos outros, precisamos uns dos outros para desempenhar bem nossa função, como bem nos mostrou o sr. Ânus, que humildemente se calou na primeira conferência e preferiu mostrar essa verdade na prática. Portanto, cada um de nós, por menor que sejamos, somos fundamentais para o bem-estar do sr. Assis”.

De pé, todos aplaudiram a decisão. Muitos aplausos, bastante tempo. Seguiram-se abraços, reconciliações, agradecimentos ao sr. Ânus e a paz reinava na Última Grande Conferência Interorgânica do Sr. Assis.

(1ª Coríntios 12)

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About Francisco Eliciano

Francisco Eliciano é graduado em Administração de Empresas. É membro de Igreja Batista em Teresina-PI. Dá muito valor ao estudo bíblico. Sobretudo, ele é servo de Jesus Cristo. Escreve no Infosol desde 2008 juntamente com uma galera fantástica. Também colabora com o 'Ideias que Conecatm' uma página no facebook (facebook.com/iqconectam).

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